Yoani Sanchez: Fatos inexplicados

10/12/2009 00:40

 

Yoani María Sánchez Cordero é uma havaneira nascida em 1975, aparentemente graduada em Filología desde o ano 2000, segundo anuncia em seu blog. Subsiste uma dúvida a respeito, pois, durante sua estadia na Suíça, dois anos depois, quando se matriculou com as autoridades consulares, declarou um nível "pré-universitário", como o demonstram os arquivos do consulado da República de Cuba em Berna.1 Assim, depois de trabalhar no campo editorial e de dar cursos de espanhol para turistas, decidiu abandonar o país em companhia de seu filho. Em 26 de agosto de 2002, depois de se casar com um alemão chamado Karl G., emigrou para a Suíça com uma "licença de viagem ao estrangeiro" válida por onze meses, face ao "desencanto e à asfixia econômica" que reinava em Cuba.2

Curiosamente, descobrimos que depois de fugir de "uma imensa prisão com muros ideológicos"3, para retomar as palavras que usa para se referir a seu país de nascimento, decidiu, dois anos depois, durante o verão 2004, deixar o paraíso suíço - uma das nações mais ricas do mundo - para regressar ao "barco que faz água a ponto de naufragar" como qualifica metaforicamente a Ilha.4 Face a essa nova contradição, Sánchez explica que elegeu regressar ao país onde reinam "os gritos do déspota"5, onde "seres das sombras, que como vampiros se alimentam de nossa alegria humana, nos inoculam o temor através do golpe, da ameaça, da chantagem6", "por motivos familiares e contra a opinião de conhecidos e amigos".7

Quando se lê o blog de Yoani Sánchez, onde a realidade cubana é descrita de modo apocalíptico e trágico, tem-se a impressão de que o purgatório é, em comparação, um balneário, e que só o calor asfixiante da antecâmara do inferno dá uma ideia do que vivem cotidianamente os cubanos. Não aparece nenhum aspecto positivo da sociedade cubana. Só se contam aberrações, injustiças, contradições, dificuldades. Por conseguinte, o leitor custa a entender que uma jovem cubana tenha decidido deixar a riquíssima Suíça para regressar a viver no que ela assimila ao inferno de Dante, onde "os bolsos se esvaziavam, a frustração crescia e o medo acampava".8 Em seu blog, os comentários de seus partidários estrangeiros florescem a respeito: "Não entendo teu regresso. Porque não deste um futuro melhor para teu filho?", "Estimada amiga, quisera saber o motivo pelo qual decidiste regressar a Cuba".9

Em troca, alguns de seus compatriotas que vivem no exterior, decepcionados com o modo de vida ocidental, também lhe expressam seu desejo de regressar para viver em Cuba: "Regressarei", "vivo em Miami há 7 anos [...] e às vezes também me questiono o fato de se valeu a pena o desterro físico", "Faz-me falta minha gente [...].Alguma vez o farei, voltarei a casa com meu esposo alemão - outro louco que está de acordo em solicitar residência lá", "Por que regressaste?...solidão, nostalgia, ansiedade. [Logo, referindo-se ao mundo ocidental] caras estranhas, gente triste e enfadada com o resto da humanidade sem saber por quê, políticos igual de corruptos e muitos dias cinzas. Não faz falta que expliques nada. Há 14 anos não há sóis em meu mapa do tempo", "Reenviei [a informação] a meu pai que vive fora de Cuba, que tem planos de regressar".10

Uma das duas, ou Yoani está fora de si para decidir deixar a Pérola da Europa e regressar a Cuba, ou a vida na Ilha não é tão dramática como na descrição que ela apresenta.

Numa intervenção em seu blog, em julho de 2007, Yoani relatou detalhadamente a anedota de seu regresso a Cuba. "Há três anos [...] em Zürich [...], decidi regressar para ficar no meu país", anunciou, sublinhando que se tratava de "uma simples história do regresso de um emigrante a seu torrão". "Compramos passagens de ida e volta" para Cuba. Então Sánchez decidiu ficar no país e não regressar à Suíça. "Meus amigos creram que lhes contava uma piada, minha mãe se negou a aceitar que sua filha já não vivia na Suíça do leite e do chocolate". Em 12 de agosto de 2004, Sánchez se apresentou no escritório de imigração provincial de Havana para explicar seu caso. "Tremenda surpresa quando me disseram, pega o último da fila dos 'que regressam' [...].Assim que encontrei, de pronto, outros "loucos" como eu, cada um com sua truculenta história de retorno".11

Com efeito, o caso de Sánchez está longe de ser um caso isolado, como o ilustram essa anedota e os comentários deixados em seu blog. Cada vez mais cubanos que escolheram emigrar para o estrangeiro, depois de enfrentar numerosas dificuldades de adaptação e descobrir que o "El Dorado" ocidental não brilhava tanto como haviam imaginado e que os privilégios dos quais gozavam em casa não existiam em nenhuma outra parte, decidem regressar para viver em Cuba.

Em contrapartida, Yoani Sánchez omite contar as verdadeiras razões que a levaram a regressar a Cuba, mais além dos "motivos familiares" que evocou (motivos que sua mãe não compartilhou aparentemente, haja vista sua surpresa). As autoridades cubanas lhe concederam um tratamento favorável por razões humanitárias, permitindo-lhe recuperar seu estatus de residente permanente em Cuba, apesar de que esteve por mais de 11 meses fora do país.

Na realidade, a estadia na Suíça passou longe de ser tão idílica como havia previsto. Sánchez descobriu um modo de vida ocidental completamente distinto do que estava acostumada em Cuba, onde, apesar das dificuldades e vicissitudes cotidianas, todos os cidadãos dispõem de uma alimentação relativamente equilibrada, apesar da caderneta de abastecimento e das penúrias, de acesso à assistência médica e à educação, à cultura e ao ócio gratuito, de uma moradia e de um ambiente de segurança (a criminalidade é muito baixa na Ilha). Cuba quiçá seja o único país do mundo onde é possível viver sem trabalhar (o que nem sempre é algo positivo). Na Suíça, Sánchez teve enormes dificuldades para encontrar um emprego e viver decentemente e, desesperada, decidiu regressar ao país e explicar as razões disso às autoridades. Segundo estas, Sánchez haveria suplicado, chorando, aos serviços de imigração, que lhe concedessem uma dispensa excepcional "para revogar seu estatuto migratório" e lhe concederam.12

Yoani Sánchez decidiu ocultar essa realidade, cuidadosamente.

 

Notas:

1 Correspondência com sua Excelência Senhor Isaac Roberto Torres Barrios, Embaixador da República de Cuba em Berna, 17 de novembro de 2009.

2 Yoaní Sánchez, «Mi perfil», Generación Y.

3 France 24, «Ce pays est une immense prison avec des murs idéologiques», 22 de outubro de 2009.

4 Yoaní Sánchez, «Siete preguntas», Generación Y, 18 de novembro de 2009.

5 Yoaní Sánchez, «Final de partida», Generación Y, 2 de novembro de 2009.

6 Yoaní Sánchez, «Seres de la sombra», Generación Y, 12 de novembro de 2009.

7 Yoaní Sánchez, «Mi perfil», Generación Y, op. cit.

8 Yoaní Sánchez, «La improbable entrevista de Gianni Miná», Generación Y, 9 de maio de 2009.

9 Yoaní Sánchez, «Vine y me quedé», Generación Y, 14 de agosto de 2007.

10 Ibid.

11 Ibid.

12 Correspondência com sua Excelência Senhor Orlando Requeijo, Embaixador da República de Cuba em París, 18 de novembro de 2009.

Salim Lamrani - revisado por Caty R

Salim Lamrani é professor encarregado de cursos na Universidade Paris-Sorbonne - Paris IV e na Universidade Paris - Est Marne-la-Vallée e jornalista francês, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Acaba de publicar Cuba: Ce que les médias ne vous diront jamais (Paris: Editions Estrella, 2009). Contato: lamranisalim@yahoo.fr

Original publicado em Rebelión como "El Fenómeno Yoani Sanchez", versão traduzida retirada de Fund. Lauro Campos 

 

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