Posada Carriles está livre, 35 anos após ataque a avião cubano

02/11/2011 13:43

Em entrevista concedida ao Fazendo Media, o Embaixador da República de Cuba no Brasil, Carlos Rafael Zamora Rodríguez, fala sobre as relações diplomáticas Brasil-Cuba e a batalha há mais de uma década para libertação dos Cinco Heróis Cubanos, presos em Miami.
 

Fazendo Media: Como estão as relações diplomáticas Brasil-Cuba com o governo Dilma? Mudou alguma coisa em relação ao que era com o governo Lula?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: As relações diplomáticas Cuba-Brasil são excelentes. A relação entre esses países irmãos vem se aprofundando há 25 anos, quando se estabeleceu um vínculo diplomático assim que José Sarney assumiu a presidência do Brasil. A partir daí as relações diplomáticas Cuba-Brasil vêm melhorando a cada governo e hoje em dia são excelentes. Existe uma amplitude boa de intercâmbio do ponto de vista econômico e comercial, e o Brasil é o nosso segundo parceiro no continente sul-americano e nos planos políticos e diplomático. Há um intercâmbio muito aberto e transparente.

Fazendo Media: O que Cuba tem feito pela Campanha de Libertação dos Cinco Heróis Cubanos, sobretudo agora com a libertação condicional de René González por três anos em Miami?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: É importante observar que depois do dia 6 de outubro de 1976, completaram 35 anos do atentado contra um avião civil cubano [avião DC-10] onde morreram 73 pessoas. Esse é o exemplo mais ilustrativo de terrorismo exercido contra Cuba nos últimos 50 anos. Cuba sofreu centenas de ações terroristas que vitimaram mais de 5 mil cubanos, entre mortos e feridos com sequelas, durante meio século. Todas elas vindas do território dos Estados Unidos. Dessa forma é que são organizadas ações contra Cuba.

E neste sentido é que Cuba se reporta aos Estados Unidos, no sentido de dar um fim a estas atividades terroristas, que destruíram vidas e afetaram bastante a economia cubana. Uma via que Cuba utilizou foi enviar os cinco cubanos para monitorar as atividades de grupos terroristas dentro dos Estados Unidos. Com isso foi possível evitar outras ações terroristas.

O governo de Cuba recebeu, em 1996, informações de que Luis Posada Carriles foi o responsável pelo atentado que derrubou o DC-10 da aviação cubana em 1976 e que também planejava fazer outro atentado contra um avião de civis que voavam entre países da América Central. Constatou-se também, nesta época, que Posada Carriles dirigiu ações terroristas em Havana contra um hotel para minar o turismo.

O Comandante Fidel Castro leu isto na carta e então a enviou para o escritor Gabriel García Márquez, para que enviasse ao governo do presidente Bill Clinton. Evidente que Clinton se preocupou com o que estava acontecendo. Uma delegação dos EUA foi a Cuba para ver o assunto. Houve uma reunião com o governo de Cuba e lhes foi entregue uma grande quantidade de informações com dados, provas e evidências da existência de grupos terroristas nos EUA.

Lamentavelmente, nenhum terrorista até hoje foi julgado e não se fez nada para combater o terrorismo contra Cuba. E ainda foram presos todos os cinco companheiros, que teriam oferecido boa parte das informações das atividades terroristas que iam sendo realizadas pelos grupos terroristas nos EUA.

Há um processo contra os cinco companheiros cubanos (Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramon Labañino e René González) cheio de irregularidades, e eles foram submetidos a mal tratos. Foram presos por ajudar a expor as atividades de grupos terroristas nos Estados Unidos contra Cuba. Os EUA buscaram em Miami todas as atividades contra Cuba e depois contrataram um jornalista para assediar uma campanha contra os Cinco.

Nessas condições, foram julgados e condenados nossos companheiros com uma extensa pena e prisões perpétuas. Agora o processo está praticamente encerrado e não há nenhuma maneira de obter notícia. Todos foram condenados injustamente com crueldade. Ultimamente parece uma ação política contra Cuba, e ao mesmo tempo continua-se esquecendo as ações e atos adicionais de crueldade. Não é permitido, por exemplo, nossos companheiros terem visitas de suas famílias.

Fazendo Media: Qual a postura dos organismos internacionais em relação a Posada Carriles e aos Cinco Heróis Cubanos?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: É claro que existe uma batalha não só em Cuba, mas também internacional do Comitê das Nações Unidas, contra as detenções ilegais e a tortura. O Comitê emitiu um pronunciamento, onde considera o processo de detenção dos cinco cubanos arbitrário. Ele também abriu no âmbito internacional um informe em relação à situação dos Cinco, que deve ser tratado em outros conselhos de Direitos Humanos pelo fato dos companheiros cubanos estarem sofrendo condições avessas às prisões.

E enquanto isso, Posada Carriles está livre e o governo dos EUA não quer julgá-lo, apesar de ser um assassino confesso e autor do caso do avião. Nessas circunstâncias, se acaba de cumprir o período de prisão de René Gonzáles. Sua condenação foi cumprida até o último minuto, e quando está para se libertar tem uma pena adicional de 3 anos em liberdade condicional a cumprir em Miami.

Fazendo Media: Qual o risco que René Gonzáles corre nestes três anos em Miami?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: De o grupo terrorista americano, no qual ele atuou buscando informação, matá-lo. René foi separado da sua família, essa é uma situação que ele terá que atravessar durante este período. Eu creio na voz internacional e que todo o mundo se dirija fazendo um apelo aos americanos, devido à tamanha injustiça que está acontecendo.

Fazendo Media: Alguns grupos de solidariedade estão engajados na campanha pela libertação dos Cinco. O que nós, aqui do Brasil, podemos fazer?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: Ao povo brasileiro só tenho que agradecer através de ti e de sua mídia pelo reforço e solidariedade. O povo brasileiro se sensibilizou fortemente com este tema. Precisamos do Brasil, no sentido de continuar com seu esforço.

Fazendo Media: Cuba está abrindo crédito a produtores e trabalhadores independentes, a fim de atualizar o seu modelo econômico. A grande mídia remete isso como ao início de um colapso do regime cubano. Quais são as mudanças que Cuba está realmente fazendo?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: No 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba, a ilha definiu a atualização do modelo econômico cubano. Durante seis meses, todos os dias, em todos os lugares da ilha, foram apresentadas mais de oitocentas mil propostas políticas, conhecidas como alinhamento de política econômica e social. Cada alinhamento corresponde a uma esfera que tem como objetivo a atualização do modelo econômico cubano, que foi debatido com toda a população cubana. Dois terços destas propostas foram modificadas em uma votação popular, buscando o consenso de todo o país. O debate aberto e franco em toda a ilha é método que Cuba adota com muita frequência.

Depois de todo esse debate, se aprovou no congresso definitivamente com algumas emendas incluídas pelos deputados. Hoje, esse documento aponta a nossa política de atualização de um momento econômico e social para o país. O alinhamento da política tem como estrutura todo o esquema empresarial do país para um melhor funcionamento, tanto no aspecto governamental como na descentralização das atividades empresariais e econômicas.

Esse alinhamento está também no sentido de oferecer uma forma não estatal de pequena produção e ou de empreendedorismo, como é chamado aqui no Brasil. O caso mais comum no Brasil é o modelo de cooperativa de trabalho. Neste contexto, o governo está entregando terras ociosas para que sejam cultivadas a fim de substituírem importações e oferecerem uma segurança complementar ao país.

Este processo terá um melhor resultado, e também existem cubanos apoiando com insumos, equipamento e outras formas de apoio para ajudar a conseguir melhores resultados agrícolas. Existe um processo pelo qual o Brasil colocou sua intenção de cooperar, e nessa negociação estamos nesse momento.

Fazendo Media: Cuba e Brasil estão trabalhando juntos pela recuperação do Haiti. O que tem sido feito?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: Acredito que a ajuda e o apoio que Cuba oferece atualmente para formar profissionais do mundo todo é importante, mas temos que reduzir um pouco essa formação pelas dificuldades econômicas que os países têm. Cuba já graduou mais de mil médicos na América Latina e no Caribe. Com foco principalmente na Venezuela e em outros países, formando médicos.

No Brasil, Cuba já graduou cerca de 400 médicos brasileiros. Cuba tem ciência de que o Brasil precisa muito de médicos. Existem regiões brasileiras que precisam de médicos e a população brasileira precisa de trabalhadores melhor formados. Brasil e Cuba estão trabalhando juntos no Haiti, onde vamos oferecer à população haitiana mais de 800 profissionais entre médicos e profissionais da saúde. O terremoto em 2010 reforçou esta necessidade. O Brasil assumiu uma parceria com El Salvador em um acordo tripartite, para contribuir com todo o problema da saúde haitiano.

Fazendo Media: O cônsul-geral de Cuba no Brasil, Lázaro Méndez Cabrera, assume que Cuba errou em sua política de amparo estatal, mas que o fato de tentar mudá-la, não prejudica o socialismo, mas sim o reforça. Ele também critica o que ele chama de “igualitarismo”, que tem sido praticado em Cuba. Que tipo de conceito Cuba está mudando?
Carlos Rafael Zamora Rodríguez: Cuba é uma sociedade onde se exerce a maior igualdade possível, porém não se pode exercer uma espécie de igualitarismo falso. Todos nós somos iguais nos direitos, nos deveres e perante a lei. Mas não somos iguais em relação a cada pessoa. Em todas essas décadas Cuba aplicou mecanismos que reduzem muito as diferenças, como, por exemplo, a garantia a toda a população do mínimo de produtos quando há o máximo de escassez.

Creio que é importante quando se tem pessoas vulneráveis, que essas pessoas recebam um subsídio em determinado momento. É o que posso explicar a grosso modo nesse momento, o tema exigiria um tempo muito maior para ser explicado.

Fonte: Fazendo Media

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