Os Estados Unidos ensaiaram poses humanitárias, mas mantêm o assédio comercial e financeiro com o objetivo de render o povo cubano

15/05/2009 20:23

Por Ariel Terrero Escalante

(Jornalista cubano em visita ao Brasil a convite da Federação Nacional dos Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal)

Recorrente e onipresente o bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos a Cuba manifesta-se em todas as partes: nos portos, bancos e aeroportos, nas redes elétricas e de computadores (Internet), em hospitais e nos superlotados estádios esportivos, na venda de alimentos, e até em disputas filosóficas sobre o ser e o nada.

Enquanto frios observadores se entretêm, a política norte-americana contra a Revolução Cubana evidenciou-se também entre as ruínas provocadas por um desastre natural: os furacões Ike e Gustav, que assolaram a ilha caribenha entre fins de agosto e princípio de setembro.

O governo dos USA colocou-se, rapidamente, a reboque das doações humanitárias prometidas por outros países a Cuba. Em um gesto inicial, a maior economia do mundo ofereceu cem mil dólares, soma ridícula se comparadas às oferecidas por outras nações como o Brasil e a humilde ilha asiática de Timor Leste, que ofereceu a Cuba meio milhão de dólares.

Mas como Cuba recusou a oferta do "dadivoso" vizinho do norte, Bush, de maneira calculada, engordou a cifra em dólares quando já se tornava evidente que teria que assinar o cheque.

Por que Cuba rechaçou a ajuda dos EUA?

Resulta difícil aceitar gestos misericordiosos de um país que reage com rigor cada vez maior diante de qualquer gestão comercial entre Cuba e outros países.

Fiel à sua soberba, a Casa Branca exigiu que fosse enviada uma equipe própria para avaliar os danos estimados por Cuba, resultantes da violência dos furacões, danos esses sobre os quais nenhum outro país levantou dúvidas.

Cuba não engoliu a pílula receitada, embora tenha aberto uma porta para o vizinho provar sua boa vontade. Em nota oficial, solicitou a Washington a "permissão para que Cuba vendesse produtos indispensáveis e a suspensão das restrições que impedem que companhias norte- americanas concedam créditos comerciais privados ao nosso país para a compra de alimentos nos Estados Unidos".

Porém, a Casa Branca mostrou-se resistente em liberar, ao menos temporariamente, a concessão dessa ferramenta natural do comércio mundial: os créditos.

Mediante a publicação de listas negras e de outras formas de pressão, Washington busca atemorizar as instituições financeiras e bancárias que ousem conceder créditos e manter vínculos com bancos cubanos.

A Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) persegue inclusive operações correntes em pequenas quantias. Em 22 de fevereiro de 2008, multou os bancos norte-americanos Atlantic e RMO Inc. As represálias estenderam-se a instituições estrangeiras, como o poderoso UBS suíço, mais uma prova do caráter extraterritorial do bloqueio.

A OFAC e outros rastreadores impediram que Cuba efetuasse compras importantes em outros países, aí incluídos medicamentos, seringas, equipamentos médicos e camisinhas, como consta no extenso informe apresentado este ano pelo governo cubano à Assembléia Geral das Nações Unidas.

A maior das Antilhas não conseguiu comprar três milhões de seringas descartáveis no valor de 256 mil dólares para vacinação da população infantil, que seria intermediada pela Aliança Mundial para Vacinas e Imunização.

O Departamento do Tesouro dos EUA tampouco renovou a licença dada à ONG norte-americana Population Services International (PSI) para continuar colaborando com Cuba, inclusive com o envio de preservativos "Vives" e sua distribuição aos grupos vulneráveis a AIDS.

A esta altura da história contemporânea, até um importante diário estadunidense, The New York Times, qualificou a política de bloqueio como obsoleta e contraditória em relação às supostas intenções caridosas da Casa Branca.

O preço do bloqueio mostra-se ainda mais salgado em momentos como esse em que os furacões Ike e Gustav golpearam fortemente a já limitada produção de alimentos em Cuba. Além da dificuldade de adquirir sementes norte-americanas, de ter acesso a tecnologias para a criação de galinhas e para a indústria de arroz, existem as armadilhas preparadas pelos rastreadores da OFAC contra as empresas de outros países que pretendam comerciar com Cuba.

Uma empresa mexicana suspendeu a venda de embalagens a Ilha por conterem alumínio norte-americano, enquanto outras empresas evitam a compra do níquel cubano para não irem contra as regras impostas pelos EUA, que limitam a importação de produtos que contenham essa matéria-prima extraída do subsolo cubano.

O brutal prejuízo de cerca de nove milhões de dólares, causado pela combinação de dois furacões é apenas uma pequena amostra se comparada ao sangramento provocado a Cuba pelo bloqueio.

Somados aos mais de três bilhões de dólares que Cuba perde anualmente, esse é o montante dos custos ascendentes do bloqueio, desde que os EUA se propuseram a render o povo cubano pela fome e desespero, como rezam documentos de Washington.

Em lugar de sua falsa aparência humanitária, "a única atitude correta, ética e conforme com o Direito Internacional e a vontade quase unânime dos membros da Assembléia Geral da ONU, seria, como o reclamou o governo cubano diante desse foro mundial, eliminar, definitivamente, o cruel bloqueio econômico, comercial e financeiro mantido, há quase meio século, contra nossa Pátria".

Pela décima sétima vez, 185 nações que compõem a Assembléia Geral da ONU rechaçaram o bloqueio e votaram a favor de uma resolução contra o Bloqueio norte-americano a Cuba. Somente os EUA, Israel e alguma ilha pequena perdida do Pacífico somam três votos isolados a favor de sua manutenção.

É grande a expectativa agora sobre como o novo governo de Barack Obama, (terá tempo, em meio à crise financeira estadunidense?) se ocupará da pequena vizinha.

Não creio que Cuba seja uma prioridade para Washington, nem que a emaranhada rede de leis do bloqueio possa ser eliminada com a assinatura de um presidente. Penso que não será imediata a oportunidade histórica para uma mudança, ainda que sejam cada vez maiores as evidências de esgotamento e as falhas na anacrônica muralha comercial, financeira e econômica levantada pelos Estados Unidos ao redor da ilha socialista.
No entanto, a chave fundamental para uma mudança não está no Norte. Em minha opinião, as forças que ajudarão a por o fim ao Bloqueio estão sendo criadas hoje ao Sul do continente latino-americano.
 

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