Fernando Morais: livro é 'furo' sobre guerra dos EUA contra Cuba

23/10/2011 19:28

Em debate ocorrido nesta quinta (20), no Teatro da Faculdade Paulista de Comunicação (Fapcom), o escritor e jornalista Fernando Morais apresentou Os últimos soldados da Guerra Fria, seu novo livro. Promovido pelo Barão de Itararé, Revista Fórum e Circuito Fora do Eixo, o evento também contou com as presenças de Socorro Gomes, Lázaro Méndez Cabrera, Max Altman e mediação de Renata Mieli e Renato Rovai.


Em sua nova obra, lançado pela Companhia das Letras, Fernando Morais retoma a reportagem literária em torno de Cuba. O escritor mineiro ganhou notoriedade com a publicação do emblemático A Ilha, em 1976, quando em plena ditadura militar brasileira, desmitificou e escancarou uma realidade social totalmente diferente da que era passada pela grande mídia.
 

A obra é fruto de uma pesquisa minuciosa sobre a Rede Vespa, uma agência secreta cubana que infiltrou agentes em organizações estadunidenses de extrema-direita, na década de 90. O turismo era a indústria cubana que mais crescia e essas organizações recebiam dinheiro para promover ataques terroristas à ilha (por exemplo, jogar pragas em lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana, plantar bombas e disparar rajadas de metralhadora em locais cheio de turistas e cidadãos cubanos).

“Em 1998, quando estava nos Estados Unidos, com a minha esposa, escutei na rádio um breve relato sobre agentes secretos cubanos presos. Na hora pensei: aí tem algo interessante”, afirma Morais. Depois disso, foram mais de 20 viagens para Miami e Cuba, análise de documentos secretos e centenas de entrevistas. O resultado é um extensa reportagem com os melhores elementos literários de um romance de espionagem.

Para o escritor, o que surpreende é que seu livro conta novidades do passado, e isso significa muito quando se trata de Cuba. “Essa história, na verdade, é um furo jornalístico. O que revela que a postura da grande imprensa em relação à ilha permanece inalterada mesmo após 52 anos de revolução”, diz.

Durante sua exposição, Fernando Morais fez questão de criticar a grande imprensa brasileira. O escritor, em começo de carreira, chegou a trabalhar na Veja, mas faz questão de ponderar, bem humorado: “naquele tempo, Fidel Castro dava capa positiva na Veja”. Segundo ele, o veículo ainda não publicou “uma sílaba” sobre o livro, mas diz gozar do privilégio de entrar na revista pela “porta da frente”, ou seja, pelas mãos dos leitores, já que o livro está entre os mais lidos.

Com uma boa recepção até o momento – Os últimos soldados da Guerra Fria terá diversas traduções e já foi negociado para virar filme. Fernando Morais justifica: “A história não precisa de adjetivo. É uma história com tutano, osso e pele. Nem o mais talentoso romancista daria conta de contá-la de forma tão rica como ela é na realidade”.

Para o cônsul de Cuba, Lázaro Mendes Cabrera, a obra é uma grande contribuição à luta da ilha e reflete o sentimento de solidariedade que há entre os povos latino-americanos. Socorro Gomes, a presidente do Centro Brasileiro de Luta Pela Paz (Cebrapaz), também ressalta essa questão, lembrando a cooperação internacional que Cuba promove na área da medicina e da educação.

Os cinco cubanos ignorados pela mídia

O tema dos cinco cubanos ignorados pela mídia também foi abordado pela mesa. Advogado, jornalista e membro do Comitê Brasileiro pela Libertação dos 5 Patriotas Cubanos, Max Altman comentou que o livro tem quebrado barreiras importantes para a divulgação do caso. “Levamos nossa luta à imprensa brasileira por diversas vezes, mas simplesmente não há interesse nenhum da parte deles”, afirma.

Altman chamou a atenção para o fato de que, enquanto os cubanos estão encarcerados em solitária, sem luz, água e incomunicáveis, Luis Posada Carriles caminha tranquilamente pelas ruas da Florida. Ele foi responsável por explodir um avião cubano com 73 passageiros em pleno vôo, no ano de 1976.

Para Fernando Morais e demais debatedores, o que os Estados Unidos não aceitam e os grandes veículos de comunicação, por consequência, também não, é que um país tão pequeno como Cuba esteja resistindo, há tanto tempo, à maior máquina econômica e militar da história. Os últimos soldados da Guerra Fria retrata, com primor literário, um capítulo importante e oculto dessa história.

Fonte: Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé

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