Cuba vive boom artístico e atrai novos colecionadores

10/07/2009 13:03

Estão lotados e cada vez mais frequentes os voos entre Estados Unidos e Havana. Desde que o presidente Barack Obama liberou viagens de cubano-americanos à ilha e facilitou vistos para seus cidadãos, Cuba vive uma espécie de degelo pós-era Bush e tem no mercado de arte um sinal forte desses novos tempos.

 

Pela primeira vez em mais de 20 anos, a ilha recebeu uma exposição de artistas norte-americanos, como parte da 9ª Bienal de Arte Havana, encerrada em abril. Atrás deles, vieram colecionadores estrangeiros que fizeram triplicar os preços das obras no mercado local e voltaram os olhos do circuito internacional para a ilha e seus artistas.

 

É uma guinada que jogou o país comunista no furacão do mercado global, ainda que por um instante. Carlos Garaicoa, a dupla Los Carpinteros e Tania Bruguera, com projeção mundial tão grande quanto o valor de suas obras, são destaques de uma cena ainda tomada por arte decorativa — mas ajudaram a turbinar a venda de outros cubanos pelo mundo.

 

Seus colegas menos conhecidos — como Felipe Dulzaides e Abel Barroso, que estiveram na última Bienal de Havana — têm recebido convites para expor em Tóquio, Xangai e outros pontos distantes da ilha. “A arte cubana já faz parte da linguagem global”, diz Dulzaides, que hoje mora em San Francisco. “Muitos aqui nem têm internet, mas trabalhamos com galerias fora de Cuba”, completa Barroso. "Não há colecionadores na ilha — então vendemos nossas obras para fora.”

 

Mas é um boom ainda restrito ao mercado. No plano político, são tímidos os sinais de abertura mais ampla a Cuba, como a decisão da Organização dos Estados Americanos de derrubar a restrição à entrada do país no bloco e promessas de Obama de normalizar relações com a ilha até o fim de seu mandato.

 

“Há um interesse renovado por arte cubana”, atesta Ben Rodríguez-Cubeñas, diretor do Cuban Artists Fund, em Nova York. “Temos agora uma possibilidade de restabelecer laços que se perderam.” Ele fala do governo Bush, que proibiu viagens e qualquer intercâmbio entre Estados Unidos e Cuba em 2004, rompendo com algumas exceções abertas no mandato de Bill Clinton.

 

Na esteira desse isolamento, vem essa abertura ainda em fase embrionária. "Alguns artistas cubanos estão explodindo, os preços triplicaram", diz Sandra Levinson, do Center for Cuban Studies, em Nova York, que acompanha arte cubana há 40 anos. “A economia continua terrível, mas o mercado de arte continua de pé. É um sinal de novos tempos em Cuba.”

 

“Existe mesmo grande interesse por arte cubana”, diz Luis Miret, diretor da galeria La Habana, a mais importante de Cuba. “É uma produção que não se mede em preços”, relativiza Sandra Ceballos, artista e dona da galeria Espacio Aglutinador, em Havana. "Essa produção contemporânea é fulminante, bate de frente e é cara porque é uma forma de arte visceral.”

 

Geladeiras artísticas

 

A ousadia e a criatividade marcam essa fase. Em abril, uma proposta de artistas cubanos transformou cerca de 50 refrigeradores dos anos 40 e 50, consideradas verdadeiras relíquias, em outras tantas obras de arte que evocam carros clássicos, ataúdes, cadeados e latas de cerveja gigantescas.

 

Na 9ª Bienal de Havana, Manual de Instruções estava entre as ideias mais originais, com a premissa de transformar as geladeiras antigas (“fríos”, como são chamadas em Cuba) em arte. “São 52 geladeiras que sofreram intervenção de 55 artistas cubanos — seis deles residentes no exterior”, disse Mario Miguel González, o Mayito, um dos produtores do projeto ao lado do artista local Roberto Fabelo.

 

Os refrigeradores — quase todos de marcas norte-americanas, como Westinghouse e Frigidaire — são trabalhados a óleo, acrílico, areia, folha de palmeiras e latão, entre outros materiais. E surpreendem ao virarem um carro, um imenso coração atravessado por uma flecha ou um caixão.

 

Good Bye Rocco, por exemplo, é a obra em que o ator Jorge Perugorría transformou a geladeira Rocco (do filme Morango e Chocolate) em um ataúde azul com véus brancos salpicados de girassóis e um motor no lugar do corpo a ser velado. Uma gigantesca lata de cerveja Cristal é a obra de Miguel Leiva, enquanto Eulises Niebla converteu o seu artefato em um cadeado com chave e tudo, intitulado High Security.

 

Da redação, com agências

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