Crônica de um dos homens do ano

26/02/2011 12:48

 

extraído de Cubadebate

 

O Dr. Marcus Dutra em Nabasanuka.O dr. Marcus Dutra, médico brasileiro, graduado na Escola Latinoamericana de Medicina (ELAM), escreveu à jornalista Arleen Rodríguez um comentário, a propósito do artigo 'O Homem do Ano' (leia abaixo), que não queríamos deixar de compartilhar com nossos leitores. Marcus se encontra prestando serviços em uma comunidade indígena chamada Nabasanuka, no Estado de Delta Amacuro, Venezuela.

Arleen querida,

Não havia visto o texto que escreveste para o Cubadebate, obrigado pelas palavras que me dedicas. É certo que se não fosse pela Revolução cubana e pela Revolução bolivariana jamais sería possível nada disso.

E que casualidade que me tenhas enviado hoje o correio eletrônico com o teu artigo. Ontem à noite, às 04h00 da madrugada em ponto, realizei um parto de uma mulher com eclampsia (afecção grave que ocorre geralmente no final da gravidez, caracterizada por convulsões associadas à hipertensão arterial). Convulsionou, apliquei-lhe todo o tratamento e as medidas dentro do possível, pois não contava e não conto aqui com todos os recursos de um hospital nem tinha tempo para trasladá-la a outro centro porque era de madrugada.

A lancha do ambulatório não tinha uma só gota de gasolina e ela já começava a dar à luz. O fato é que depois de todo o estresse da situação, em que era bastante possível que não sobrevivesse, bom, afinal nasceu bem o bebê, homem, gordinho. A mãe começou a melhorar, passei a noite toda ao seu lado, atento a qualquer ocorrência. Ela melhorou, não convulsionou mais, a pressão se normalizou, já não tinha dor, estava tranquila, o medicamento continuava baixando lentamente junto com o soro ... Tudo se acalmou.

Quando ela adormeceu, pude sair afora e respirar ar fresco. Eram, como disse, 4 da madrugada. Caminhei pelo pequeno cais que há defronte o ambulatório, feito de tábuas semiapodrecidas. Um silêncio tomava conta da comunidade, algumas casinhas com as luzes acesas brilhando apenas o suficiente que as velas permitem, um cachorro deitado sobre as tábuas e o silêncio profundo de todo esse povo. Não podia deixar de me sentir feliz por ter ajudade a mãe e a seu filho. Um orgulho sadio tomou conta de minha alma e ao sentir tudo isso não podia deixar de me perguntar:

caramba, saberia Fidel a exata dimensão do bem que fez à humanidade? Acaso imaginaria que em uma pequeníssima comunidade do estado mais pobre da Venezuela frente ao rio Orinoco, às 4 da madrugada, existe um médico filho da ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina) salvando gente que havia sido esquecida por todos? Poderia ele compreender o quanto dele se necessita, quanto são necessários homens como ele para trazer conforto aos seres humanos? Entenderia que não há palavras suficientes para qualificá-lo? E por caso, saberia a criança algum dia que se não fosse por Fidel Castro ela mesma não estaria viva?

Ou seja, sem Revolução não haveria ELAM, sem ELAM eu não teria sido médico, e se eu não estivesse aqui, no momento em que a mãe começou a ter convulsões e não tivesse agido a tempo, a criança provavelmente iria morrer e talvez também a mãe. Foi então, Arleen, que senti mais que nunca o orgulho de todos os internacionalistas cubanos, os que partiram para a Argélia nos anos 1960, os que foram ao Congo, os que estiveram com Che na Bolívia, os que lutaram em Angola, e senti um frio na barriga, Arleen, quando me inteirei de que agora sou um internacionalista cubano também… um soldado, um revolucionário, às ordens da Revolução cubana, e desse incrível gigante, Fidel Castro

Se algo não se entender disto que estou escrevendo de maneira apressada, é que o desejo de compartilhar tudo com você é muito forte e não posso deixar para depois. Além do mais, já estão batendo à porta, chamando pelo médico, parece que trazem um menino com desidratação. Tenho de atender. Cuide-se muito por aí, obrigado pelas palavras tão belas. Sim, é claro que pode divulgar o meu correio eletrônico, não há qualquer problema. um beijo grande.

Marcus

 

Os homens do ano

por Arleen Rodriguez

 

 Fidel en el acto por el aniversario de los CDR. Foto: Roberto Chile

 

Desde uma comunidade indígena chamada Nabasanuka, no estado Delta Amacuro, Venezuela, me escreve amiúde Marcus Dutra, jovem médico brasileiro formado na ELAM. Está feliz de servir em um desses povoados de cuja existência nada sabíamos - na verdade nem saberíamos - a não ser pelas circunstâncias que o levaram, e antes outros como ele, até o delta do majestoso rio Orinoco: a Revolução Bolivariana e o horizonte infinito dos sonhos cumpridos de Fidel.

Os correios eletrônicos de Marcus têm um certo parentesco com os de um grupo de jovens italianos aos quais conheci no ano passado durante uma conferência solidária. O que haviam lido sobre a Brigada Henry Reeve no Paquistão e outras regiões devastadas por fenômenos naturais, os inspirou a fomentar uma aproximação fraterna. Queriam aprender dos nossos a arte de desenvolver energias e esperanças, porque é o que teriam desejado para as vítimas e os danificados do terremoto de L'Aquila, que em abril de 2009 deixou centenas de mortos nesta zona do centro de seu país.

Liurka Rodríguez, colega e diplomata no Haiti também enche minha caixa de relatos sobre a desafiadora realidade dessa nação, onde Cuba, médicos e ELAM constituem-se em sinais envaidecedores de distinção humana para com um povo a quem outros só lhes reservam armas, desprezo e, às vezes, piedade e esmolas.

Conheço bem os rostos que Gladys Rubio e El Loquillo nos trouxeram em casa em seu comovedor documentário sobre a proeza mais recente no Haiti. Vi-os antes em outras reportagens de meus colegas nos cinco continentes. Tive-os por perto nos morros de Caracas e nos áridos vales bolivianos. Comoveram-me até as lágrimas, ao ver os pais olhar uma e outra vez as fotos e as cartas de seus filhos, penduradas nas paredes dos quartos improvisados a milhares de quilômetros de suas casas, onde estão fazendo história sem que eles mesmos saibam e sem que o resto do mundo o saiba.

Como escreveu Fidel, é valente e ousada a jornalista que os chama de heróis. Em nossa aldeia global, onde o heroísmo parecia ter ficado apenas nos livros e nas lendas e onde a publicidade persistente e maçante entretem e estupidifica a milhões, convidando-os a ser e parecer com as estrelas de cinema ou eventualmente as do esporte, meter-se até na lama, arriscar a própria vida para salvar outras, parece coisa de missionários loucos que os “mass mídia” não estão interessados em mostrar porque não cumprem com seus padrões de beleza.

Porque não há que se falar ou pensar sobre o silêncio ou a subestimação do verdadeiro heroísmo. Os poderosos seguirão escondendo essa verdade enquanto puderem, porque ela guia o mundo no sentido inverso ao que eles estão encaminhando, aqueles que fizeram da medicina e dos medicamentos negócios florescentes e artigos de luxo, uma enorme vergonha para esta que se supõe civilizada época.

Muitos que escrevem seus comentários a respeito das Reflexões de Fidel, se perguntam como é que seu autor não ganhou ainda um Prêmio Nobel por essa idéia maravilhosa que, viajando no sentido contrário das tendências egoístas e predatórias que o mercado impôs ao planeta, melhora e cura, enobrece e salva, não a centenas e sim a milhões de pessoas, sem distinção de etnia, classe social, idade, idéias.

Teremos de esperar outro século, talvez, para que premie o justo, o humano e o verdadeiro? Por ora, seria bom que anotemos em nossas crônicas, como fazem os contadores que apontam em seus livros de deve e haver, o que amanhã a Humanidade irá reconhecer.

Deixemos assentado que, como há meio século, Fidel foi o Homem do Ano 2010. Porque regressou como a ave Fênix, renascido e vital, sacudindo o mundo com premonições que só não se cumpriram por sua oportuna advertência. E que entrou no Novo Ano fazendo-nos ver o que se faz e o que se está ainda por fazer em matéria de sensibilidade e compromisso com as vidas que outros consideram desprezíveis porque ninguém paga por elas.

Sim, Fidel foi o Homem do Ano no mundo, como Raúl foi o Homem do Ano em Cuba, com a sacudidela que nos vem dando a todos para que se salve o nosso projeto de sociedade mais humana, essa que outros Homens e Mulheres do Ano -médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, terapeutas físicos e da alma- em qualquer rincão do planeta expandem com seu esforço, como prova de que é possível salvar-se e salvar o mundo do egoísmo, essa epidemia que leva séculos expandindo-se e seguramente custará outros séculos para ser vencida.

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 Un niño del Delta Amacuro. Foto: Marcus Dutra

 Niños. Foto: Marcus Dutra

Lo que se ve desde mi ventana. Foto: Marcus Dutra

El caserío al pie del Orinoco.

El nombre del río es de origen tamanaco, quienes lo llamaban Orinucu.. Foto: Marcus Dutra

El día a día. Foto: Marcus Dutra.

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