Carta da Brigada Rio 2011 de Solidariedade Cuba

30/06/2011 22:29

Entre os dias 25 de janeiro e 06 de fevereiro, estivemos em Cuba como integrantes da 18ª Brigada Sul-Americana de Solidariedade à ilha. Somos um grupo formado por estudantes e trabalhadores de diferentes idades e áreas de atuação profissional, alguns com militância em movimentos sociais e grupos políticos distintos. Resolvemos escrever este texto para dar nossa opinião sobre a oportunidade de conhecer outra forma de organização da sociedade que possui como um de seus principais valores o respeito pela dignidade humana – como pregava José Marti, símbolo da independência.

 

Na programação de quinze dias, organizada pelo Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), constavam palestras, seminários, reuniões, passeios turísticos, atividades culturais e visitas a museus, escolas e hospitais. Foram muitos os momentos marcantes dessa viagem, dos quais destacamos o trabalho voluntário realizado nas plantações; a Marcha das Tochas de 28 de janeiro, que encheu de jovens e luzes as ruas de Havana em homenagem ao nascimento do herói nacional Martí; a emocionante visita à escola infantil La Edad de Oro, simbolizando o valor dado à educação na ilha; as flores depositadas no Memorial de homenagem a Che Guevara, em Santa Clara, ao som da emocionante Hasta Siempre; e a inesquecível apresentação de teatro de niños do grupo La Colmenita, em homenagem aos cinco heróis cubanos, presos injustamente nos Estados Unidos.

 

Além da convivência com outros brigadistas latino-americanos reunidos no Acampamento Julio Antonio Mella, próximo a Havana, tivemos a oportunidade de nos relacionar com a população dos mais variados perfis, desde jovens estudantes até trabalhadores do serviço informal.

 

Dentre os traços mais característicos do povo cubano, podemos citar a alegria e o profundo conhecimento da sua própria história e do mundo em geral. Sempre com um sorriso largo a nos receber, alguns habitantes da ilha não deixavam de expressar uma postura crítica em relação ao seu país. A maioria possuía críticas construtivas; outros, os mais jovens, algumas vezes se mostravam ansiosos pelo mundo de consumo e excessos que lhes chega(va) pela televisão. Quase sem exceção, os cubanos são grandes fãs das telenovelas brasileiras. Lembramos a surpresa de alguns ao falarmos da nossa realidade de violência, miséria, falta de acesso à educação de qualidade e médicos que cobram mais de um salário mínimo para uma consulta particular.

 

Também tivemos a oportunidade de conhecer pessoas fora do circuito da programação oficial preparada pelo ICAP. O que mais marcou foi o quanto grande parte destes Cubanos apoiam o Regime da ilha – e não o oposto, como é informado por aqui.

Outra questão refere-se à imagem negativa construída e reproduzida pela grande mídia, que segue as orientações de Washington mentindo, manipulando e omitindo informações sobre Cuba. No imaginário de quem não conhece, é um país em péssimo estado de conservação, no qual as pessoas passam fome e vivem em extrema miséria, imagem bastante contrastante com os lugares por que passamos.

 

Uma parte da nossa brigada também permaneceu na ilha um tempo além da programação oficial. Gente que ficou hospedada na casa de duas senhoras cubanas em Havana, as quais demonstraram muito orgulho de terem seus filhos formados em curso superior. Um deles contou que havia comprado sua moradia por catorze pesos cubanos mensais durante quatro anos, o que equivale a pouco mais que a metade de 1 dólar por mês.

 

Outro fato que marcou foi a Feira Internacional do Livro. Havia tanta gente participando que, para conseguir entrar, demorava-se mais de uma hora na fila. Impressionante como cubanos de todas as idades lotavam os ônibus gratuitos que saiam do Capitólio para a Fortaleza. Aliás, os livros são muito baratos em Cuba, o que os torna bastante acessíveis para a população local e, claro, para nós turistas também, que voltamos com a mala cheia deles...

 

A participação política, uma das principais conquistas da revolução cubana, ficou explícita para nós poucos meses antes da realização do 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, quando a maioria das pessoas com quem nos relacionamos se sentia parte ativa desse processo. O Congresso nacional propôs mudanças significativas no plano da economia para, como sempre faziam questão de destacar, “atualizar o socialismo”, e não acabar com ele, como torcem os grandes veículos de mídia brasileiros e internacionais.

 

Para essa efetiva participação do povo, muito contribuem os Comitês de Defesa da Revolução que pudemos visitar. Eles foram criados logo após a vitória de Playa Girón com o intuito de defender a revolução cubana, além de serem espaços de discussão, organização e mobilização presentes em cada quarteirão do país. Nesses locais se discutem desde aspectos locais, como demandas urgentes do bairro, até decisões a nível nacional, como as diretrizes da política econômica e social que foram aprovadas em 18/04/2011 no VI Congresso do PCC, o que contou com a participação de mais de 8 milhões de cubanos.

 

 

Desenvolvimento humano e social

Também é de se admirar que Cuba, apesar de todas as mazelas naturais e dificuldades impostas pelo bloqueio, consiga seguir com os melhores índices de desenvolvimento humano. Chega a ser reconfortante andar pelas ruas de Havana e de províncias como Trinidad, Caimito e Saint Spirictus sem ver pessoas famintas, miseráveis ou moradores de rua. Vimos sim, pessoas que pediam sabão ou que queriam “cambiar” coisas nos locais turísticos de Havana, mas sem ver cenas de miséria tão naturalizadas no nosso país tão rico e desigual, onde não há políticas públicas que garantem moradia digna a todos. O índice de criminalidade por lá também é mínimo: era possível caminhar com tranquilidade e segurança pelas ruas da capital à noite, apesar de mal iluminadas.

 

É claro que tudo é muito simples e as condições são bem difíceis, principalmente por causa do bloqueio econômico que desde 1962 priva o país de relações comerciais e de solidariedade com o resto do mundo. Na época a ilha contava com o apoio da União Soviética, mas, após 1991, viu-se isolada, entrando em um dos seus momentos mais difíceis, conhecido como “período especial”. Tivemos a oportunidade de conhecer alguns cubanos que vivenciaram esse momento e resistiram orgulhosamente quando o resto do mundo achava e que o socialismo ia acabar.

 

Mesmo enfrentando tantas dificuldades econômicas, Cuba segue sendo vanguarda no que se refere à solidariedade internacional. Atualmente estudam em Cuba cerca de 50 mil estudantes estrangeiros, cursando principalmente medicina. Além disso, as missões cubanas de solidariedade na área de saúde e educação estão presentes em mais de 70 países, somando mais de 35 mil na Venezuela, entre médicos, profissionais da saúde e educadores. O maior contingente de médicos que socorrerem às vítimas do terremoto que devastou o Haiti, eram cubanos.

 

Outro relevante exemplo do internacionalismo do socialismo cubano é o projeto Escola Latino Americana de Medicina - ELAM, idealizado pelo Comandante Fidel Castro em um momento em que toda a América Central havia sido assolada por três furacões. O projeto ELAM já possui 12 anos de existência, com uma grande quantidade de médicos atuando em toda o mundo. Atualmente, cerca de 700 brasileiros estudam em Cuba. Outros 400 já se formaram, e em sua maioria estão comprometidos em trabalhar para construir um SUS 100% público, estatal, universal, integral e eqüitativo para o povo brasileiro, em que a gestão popular seja o principal instrumento de controle e planificação, a exemplo do que vivenciamos diariamente na ilha.

 

Segundo dados do PNUD de 2010, Cuba lidera o grupo de dez países emergentes com maior índice de desenvolvimento social. E ocupa o 17º lugar no ranking mundial, com taxas crescentes de escolaridade e expectativa de vida da população, graças à valorização e à universalização da educação e da saúde de qualidade. Se olharmos de fora, os salários recebidos em pesos cubanos, a moeda nacional, são, de fato, baixos, mas suficientes para garantir alimentação, transporte e acesso a bens culturais a toda a população: é bom lembrar que a ida de cubanos a museus, teatros e cinema, quando não é gratuita, custa centavos de pesos cubanos.

 

Bem, esse relato é fruto do que vivenciamos na ilha durante a brigada e algumas semanas a mais, no caso de alguns brasileiros. Por lá as desigualdades existem, mas são mínimas, nada comparadas com o que temos aqui. Ainda há muito pela frente para seguir melhorando e aperfeiçoando. Mas pensamos que talvez seja uma das experiências mais concretas de busca pela igualdade e justiça social, apesar de todas as dificuldades internas e toda pressão externa para que se renda ao mercado capitalista internacional. Achamos que o caminho é seguir torcendo por Cuba para que melhore cada dia mais, supere o que ainda precisa e continue servindo de exemplo e farol para tanta gente que acredita que é possível construir um mundo melhor. Viva Cuba! Sigamos em solidariedade.

 

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