Carta da ACJM-MG sobre a blogueira

19/10/2009 21:51

Nós do movimento nacional de solidariedade a Cuba, representados pela Associação Cultural José Marti de Minas Gerais, repudiamos veementemente a iniciativa do Senado brasileiro de trazer para uma audiência pública a bloguera cubana Yoani Sánchez, tendo em vista as seguintes constatações:

Depois de tomar conta do noticiário nacional, em que práticas fisiologistas e nepotistas suscitaram o debate em torno das suas funções , o Senado brasileiro volta à cena apelando para uma típica ofensiva conservadora: encaminhou à Embaixada de Cuba em Brasília o convite feito pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) para que a escritora e blogueira cubana Yoani Sánchez participe de audiência pública sobre o livro De Cuba, com Carinho.

Instituído pela Constituição de 1824, inspirado na Câmara dos Lordes inglesa e, posteriormente, com a República, espelhando-se nos EUA, o Senado brasileiro, cujo papel era o de revisar as propostas formuladas pela Câmara dos Deputados, para que a matéria seja enviada para a sanção do Executivo, hoje legisla e produz sua própria agenda e, longe de assegurar o equilíbrio, a instituição tornou-se reduto das oligarquias que têm na casa uma sobrerrepresentação.

Enquanto a Câmara Federal tem bancadas estaduais proporcionais ao número de eleitores de cada unidade federativa, no Senado, cada estado tem três representantes.

Talvez, por esta ótica distorcida da representatividade que o autor do requerimento para a realização do encontro , o presidente da CCJ, senador Demóstenes Torres argumentou que o lançamento do livro pela Editora Contexto, no final de outubro, é uma oportunidade para que Brasil e Cuba incrementem o diálogo bilateral.

O senador desconheceu uma regra básica da democracia : a representatividade.

Para a maioria de brasileiros que ainda convivem com 22 milhões de analfabetos, inclusive funcionais, talvez se apresente com certa naturalidade fazer um convite a uma cidadã cubana, tão" bem informada" e que por acaso é contrária ao regime vigente, alegando, entre outros motivos " incrementar o diálogo entre brasileiros e cubanos...", esquecendo que naquele país vivem 11 milhões de cubanos...

Além disto, declarações dadas pela bloguera cubana à Revista Veja do dia 4 de outubro, nos causou indignação !! Entre outras declarações se destacam :

1)"Quando se trata de Cuba, as estatísticas oficiais divulgadas pelas nossas embaixadas não podem ser levadas a sério";

2)"Não sou uma analista política. Não sou especialista em nenhum tema. Não sou diplomata".

3)"Não se sabe o que acontece no resto do mundo";

4)"A expectativa de vida é uma estatística oficial, sem comprovação, que não resistiria a um questionamento mínimo feito por uma imprensa livre".

5)"Antes da revolução, nosso país já ostentava um dos menores índices de analfabetismo da América Latina".

6) "O país construiu hospitais e formou médicos de boa qualidade na época em que recebia petróleo e subsídios soviéticos. Com o fim da União Soviética, tudo isso acabou."

Entendemos que a Yoni não tem a representatividade e a competência necessárias inclusive para contradizer estatísticas como as do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), responsável pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida comparativa que engloba três dimensões: riqueza, educação e esperança média de vida, e que avalia o bem-estar de uma população.

No relatório de 2009 , O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que mede a qualidade de vida de 182 países, classificou Cuba na posição 51, à frente de Brasil (75), Rússia (71), Arábia Saudita (59), por exemplo, e bem próximo da Argentina (49) e do Uruguai (50). Ou seja, para a ONU, cubanos, argentinos e uruguaios, entre tantos, têm nível de desenvolvimento humano parecido e bem melhor do que o Brasil (75).

 

Também denunciamos, a exemplo dos companheiros da Solidariedade a Cuba do Rio Grande do Sul, a manipulação de dados feita pela Revista Veja, com o consentimento da blogueira, ao negar os índices de mortalidade infantil de 5,3 por 1000 crianças nascidas vivas e que no período pré revolucionário era de 62,3 por cada 1000 nascidos vivos. O fim do analfabetismo em 1961 pela ação de milhares de jovens que saíram pelo país na Campanha de Alfabetização, e que possibilitaram a realização de eventos como o Festival latino-americano de Cinema e a Feira Internacional do Livro de Havana, onde o Brasil já foi homenageado e milhões de cubanos adquirem livros a baixo custo.

 

Reafirmamos que em Cuba existem as mais bem conceituadas escolas de medicina e a Escola Latino-americana de Medicina – ELAM forma médicos das mais distintas nacionalidades, jovens que não poderiam pagar pelo curso de Medicina em seus países, incluindo jovens pobres estadunidenses.

Além disto, Cuba colabora com os países menos desenvolvidos compartilhando as conquistas da revolução, levando seus médicos, que trabalham com alegria, em mais de 98 países, onde em muitos lugares no continente africanos só se pode contar com um médico cubano e o Programa "Operação Milagros" que devolveu a visão a milhões de pessoas de mais de 20 países com cirurgias gratuitas.

 

Coerentes com o nosso papel de solidariedade à resistência do povo cubano e sua revolução, deixamos aqui o nosso testemunho,

 

Belo Horizonte, 15 de outubro de 2009

Associação Cultural José Marti de Minas Gerais

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