Carlos Pompe: Luiza voltou do Canadá, Jenny voltou de Cuba

23/02/2012 13:10

No final de janeiro, num comercial paraibano de um prédio residencial, um colunista social afirmou que sua mulher e filhos estavam presentes no lançamento do empreendimento, “menos Luiza, que está no Canadá”. O episódio ganhou postagens na mídia social, brincando com o fato. Dias depois, quando Luiza voltou ao Brasil, lá estava, no aeroporto, uma equipe do Jornal Nacional, da Rede Globo, dando dimensão jornalística a uma banalidade.

Por Carlos Pompe*


No dia seguinte à reportagem, Jenny, uma alagoana militante do PCdoB baiano, embarcou para Cuba, numa viagem nada banal: integrava a XIX Brigada Sul-Americana de Solidariedade a Cuba.

Coordenada pelo Instituto Cubano de Amizade com os Povos, a brigada se formou com delegações da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, somando 230 integrantes, dos quais 126 brasileiros e, destes, 13 residentes na Bahia. O objetivo foi ampliar a compreensão da realidade cubana e, ao mesmo tempo, realizar jornadas de trabalho voluntário, como aporte ao desenvolvimento agrícola na esfera produtiva do país, e como turismo político-cultural.

Ao contrário da garota da elite nordestina, Jenny e muitos outros brigadistas brasileiros fazem parte do que vem sendo chamado de “nova classe C”: vivem do próprio trabalho, alguns se endividaram para fazer a viagem e todos uniram o prazer de uma viagem turística ao empenho de fortalecer a luta pela construção de uma sociedade em que a busca do lucro e da fugaz celebridade sem causa não é o objetivo central. Antes do embarque, os viajantes compraram material escolar, produtos de limpeza, de higiene e saúde e alimentos não perecíveis. Uma forma de ajudar os insulanos a enfrentar o criminoso bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.

Na Ilha ficaram até 5 de fevereiro. Durante o período, quando conseguia acesso à internet, Jenny postava: “Até o momento, várias emoções estão acontecendo ao mesmo tempo. Fomos para Varadero ontem, coisa linda de morrer, inacreditável existir um local como aquele. Comida e bebida inclusas no hotel com transporte por 25 cucs, mui maravilhoso. Hoje tivemos atividade de iniciação na brigada e, com todos chegando, foram feitas as reuniões, recomendações e um pouco da historia de Cuba e do que estão enfrentando atualmente. Acordamos todos os dias às 5 da manha, com o galo cantando e musica latina. Banho gelado e todos muito animados. Comida boa e farta. Palestras várias e todas emocionantes e repletas de ideologia e patriotismo. Ahhh, a net é uma porcaria.”.

Alguns dias depois: “Pessoal, tentarei ser breve. pois a net está péssima e a fila interminável. Bem, ontem fomos a Santa Clara e visitamos o Memorial do Che. Hoje fomos fazer nosso trabalho voluntário no campo. Amanhã também será no campo”. Após dois dias: “Inicialmente gostaria de dizer que o trabalho no campo realmente é extremamente pesado, ao menos para mim que não possuo prática alguma, e muito cansativo, como cortar cana. Mas muito interessante saber que os trabalhadores do campo daqui possuem nível superior, alguns em filosofia, agronomia, história e assim por diante. Somos tratados com todo o carinho do mundo por vir ate aqui e contribuir. A política daqui e totalmente diferente da do Brasil”.

Na capital, os internacionalistas participaram de uma manifestação: “Ontem fomos a Havana velha, muito parecida com o Pelourinho. Participamos da marcha das tochas, junto com a juventude cubana. Inacreditável a organização e, mais uma vez, o patriotismo de todos eles. Não dá para descrever a emoção de ver quase 20 mil pessoas caminhando com tochas, pontualidade e disciplina. Pudemos visitar o Museu da Revolução. É lindo, repleto de história viva e forte. As ruas limpas, nada aqui cheira ruim e, mesmo sendo tudo muito antigo, a organização e limpeza são de espantar”.

Enquanto a XIX Brigada estava lá, Cuba recebeu a visita da presidenta Dilma, acompanha de um batalhão de repórteres brasileiros. As emissoras de TV mandaram seus jornalistas procurarem uma blogueira pró-imperialista, queridinha da mídia reacionária, e pautou reportagens acentuando as dificuldades vividas pelos cubanos – responsabilizando a revolução, e não o cerco estadunidense, pelas vicissitudes enfrentadas. A atividade dos sul-americanos foi vitimada pela conspiração do silêncio dos que cobriram a visita presidencial.

Alheios a isso, os brigadistas visitaram a Ilha da Juventude como um de seus últimos passeios: “Lições de vida e solidariedade realmente é o que mais me impressionam no povo. A recepção que fazem para nos brigadistas é coisa de outro mundo. Não tenho palavras para descrever, apenas lágrimas nos olhos por lembrar o momento que estamos sendo privilegiados de estar vivendo aqui. Muita emoção à flor da pele. Como viveríamos melhor em uma sociedade onde o ser humano fosse o foco”, postou a comunista brasileira.

Antes de partir, os brasileiros, argentinos, chilenos e uruguaios escreveram uma Declaração de Solidariedade: “Cuba é hoje um país onde a seguridade social está garantida. Todos os cubanos e cubanas, de qualquer idade, têm direito à educação, em todos os níveis, sendo esta gratuita, totalmente subsidiada, de qualidade e avançada. O mesmo ocorre com demais direitos sociais: alimentação, saúde, pesquisa, habitação, lazer, aposentadoria, cultura, esportes”. Fazem também uma série de denúncias dos crimes perpetrados contra a Ilha socialista.

Os brasileiros desembarcaram de volta no dia 6 de fevereiro. A equipe do Jornal Nacional não estava lá. Globo, nada a ver.

*Jornalista e curioso do mundo.

 

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