Balaguer: Foro de São Paulo promove unidade e integração da esquerda

23/07/2017 12:26

 

Foto: Gramma
  

Era julho de 1990 e os sinos do mundo soaram em réquiem pela morte do chamado “socialismo real”. O neoliberalismo ganhava espaço e sobre as forças de esquerda caía uma profunda incerteza.

“Não se falava mais sobre o socialismo na América Latina, deixou-se de falar também sobre o imperialismo. A União Soviética desapareceu e parecia que se formara para sempre o sistema social do capitalismo. Os partidos comunistas estavam divididos. Todo o mundo começou a falar de outra forma. Cuba ficara sozinha hasteando as bandeiras do socialismo”.

Em meio àquele contexto de aflição, lembra Balaguer, surge o Foro de São Paulo.

Aquele ato de fundação, resultado do compartilhamento dos pensamentos do líder da Revolução cubana, Fidel Castro e Lula da Silva – então líder do Partido dos Trabalhadores e futuro presidente do Brasil, mostrou, na opinião de Balaguer, sua transcendência.

“Possibilitou a criação de um ambiente no qual as forças de esquerda, em queda, pudessem trocar ideias, discutir, analisar e ver um novo horizonte para além do pessimismo que caiu sobre elas.”

Do ponto de vista histórico, reitera: “O Foro foi extremamente necessário e confirmou as suas chances de manter a esquerda em constante discussão, unindo-a para articular uma ação para impedir o completo domínio do império estadunidense sobre a América Latina”.

Apesar das vicissitudes, este mecanismo chegou até hoje com base no diálogo, no respeito, sem se apegar a modelos únicos e reúne em mais de cem organizações, de mais de vinte países.

O 23º Encontro do Foro São Paulo, que se reúne na Nicarágua, é realizado, em sua opinião, em condições muito difíceis. E terá que voltar, indefectivelmente à gênese de um mecanismo que afetou os destinos políticos da América Latina e o Caribe.

A verdade, segundo Balaguer, é que chegamos a esta reunião com uma consciência diferente da que existiu no início. A região tem vivido importantes fatos que impactaram o equilíbrio de forças, apesar de que a ofensiva da direita, “bem assessorada” desde o norte, pretende reverter o impulso progressista.

Balaguer, que lidera a delegação cubana à reunião, recordou em seguida os acontecimentos que reconfiguraram a história em favor da esquerda.

Analisa o significado da Revolução Bolivariana e do legado de seu Comandante, Hugo Rafael Chávez Frías; o surgimento da Revolução Cidadã no Equador, com Rafael Correa; a chegada de um presidente indígena na Bolívia. Destaca também o que foi feito no Brasil, na Argentina, embora hoje o ambiente seja diferente.

Com todo esse impulso, diz ele, brotou um sentimento de confiança no futuro, e nasceu um projeto de integração regional, completamente novo, que se materializou com a criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac).

Mas à medida que crescem as chances de uma América Latina mais forte, adverte Balaguer, aumenta a pressão dos EUA e sua vontade de impedi-lo. Isto é demonstrado por golpes na Venezuela, em Honduras; as intentonas de golpe no Equador, na Bolívia; os fatos ocorridos no Brasil, na Argentina, os ataques atuais contra a Revolução Bolivariana (…)

“Trata-se, como denunciou o General de Exército [Raúl Castro], de um projeto de guerra não convencional para evitar que existam na América Latina governos capazes de enfrentar o domínio que os Estados Unidos exercem sobre os nossos países.”

Esta é, sublinha, a situação atual. Mas, durante toda esta jornada histórica, de momentos de fracasso e outros de auge, “o Foro de São Paulo sempre esteve presente para discutir, analisar e consolidar essa integração, que é o objetivo estratégico de nossas nações.”

“Nesta reunião, ressalta, o principal objetivo, é conseguir a unidade das forças de esquerda, dos partidos e movimentos progressistas, daqueles que acreditam na necessidade de um sistema diverso do capitalismo para superar a pobreza, a exploração iníqua que as grandes transnacionais, o sistema financeiro internacional e os Estados Unidos exercem sobre os nossos países. ”

O consenso inadiável 

A América Latina e o Caribe não podem adiar esforços comuns em prol do que possam fazer pela unidade. E, neste sentido, estão focados os objetivos principais deste Encontro do Foro.

Antes da reunião, partidos e organizações discutiram o documento Consenso de Nossa América, uma proposta que parte da lógica de que ninguém conhece mais as realidades concretas dos respectivos processos do que as forças políticas que os protagonizam.

O documento “faz uma abordagem histórica da questão da unidade das forças revolucionárias, da necessidade de incorporação de um programa que transcenda a conjuntura eleitoral e defina, em cada um de nossos países, os passos para a tomada do poder e a construção de sociedades novas, soberanas, anti-imperialistas e solidárias”.

Não estamos nos referindo, acrescenta Balaguer Cabrera, a um manual ou um conjunto de teses que regulamentem a atividade revolucionária, pois nada há de mais alheio do que isto da prática política da Revolução cubana e do pensamento de seu líder histórico, Fidel Castro.

Este direito à autodeterminação é uma das mensagens que a delegação cubana levou ao FSP, com a reafirmação do apoio à Venezuela e da solidariedade com o processo venezuelano, assim como todos aqueles que procuram levar adiante a integração da América Latina e do Caribe.

Cuba defenderá também, de acordo com Balaguer, “a unidade como única via para que nos fortaleçamos e mostrará a visão de país que desejamos: uma sociedade independente, democrática, socialista, soberana, próspera e sustentável”.

Acrescentou que o Foro na Nicarágua constitui um reconhecimento à Revolução Sandinista e ao povo nicaraguense. Será também prestada uma homenagem ao Che, um dos revolucionários imprescindíveis, quando se fala da história latino-americana. Será também celebrada a Revolução Socialista de Outubro, um evento que mudou o rumo do mundo.

Fidel e o legado da integração

“Entre os exemplos incomensuráveis que ​​Fidel deixou como herança para os revolucionários da América Latina e do Caribe, destacam-se dois que foram determinantes para as lutas dos nossos povos, partidos e movimentos. São eles, a unidade e o internacionalismo consequente “.

Assim se explica o início do Consenso da Nossa América, numa tentativa de resumir o legado de quem sempre teve a capacidade de ir ao futuro e voltar.

Há exemplos de sobra para ilustrar isto. Balaguer permite-se evocar apenas um fragmento do discurso de Fidel, proferido em Havana durante a cerimônia de encerramento do 4º Encontro do Foro de São Paulo, em 24 de julho de 1993.

“Quisera a Europa, cujas nações guerrearam entre si, por cinco séculos a fio, ter em comum o que temos nós, latino-americanos e caribenhos” (…).

“O que pode fazer a esquerda da América Latina, a não ser criar uma consciência em favor da unidade? Isso deve estar inscrito nas bandeiras da esquerda. Com ou sem o socialismo (…) ainda como países capitalistas, não teríamos nenhum futuro sem a unidade, sem a integração. ”

A afirmação de Fidel, diz Balaguer Cabrera, é um antecedente inestimável que encerra o objetivo estratégico da América Latina e do Caribe: “Fidel foi um artífice da ética de Martí. Seu conceito de Revolução enuncia ponto a ponto os valores que os revolucionários devem ter.”

Valores que, tanto no âmbito do Foro, quanto em qualquer outro cenário, devem continuar promovendo a unidade e a integração da esquerda regional.




 


Fonte: Granma; tradução de Maria Helena de Eugênio para o Resistência

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