A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

26/01/2010 00:56

 

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de
vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era
uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada
pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde,
ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores
militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente
Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito
por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca
ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura
sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil
páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado.
Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o
poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos
votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta
categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo
haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.
Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que
Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para
dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses,
não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que
é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos
pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os
professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti.
Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o
embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o
problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana
sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf,
consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o
país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto
a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro
quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado
pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos
pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está
superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há
alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

 

A tradição racista


Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até
1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar
as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia
vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing,
secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar
explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que
tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física
de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips,
havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior,
incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".


O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma
grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das
leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria
demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os
referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz
tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se
impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e
sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".


Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os
escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros
eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza,
cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o
amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor
entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo,
contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão
científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de
costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David
Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas
habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".


A humilhação imperdoável


Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de
Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida
à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os
Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha
meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de
tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens
são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão
inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra
haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas
calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia
caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi
condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém
a reconhecia.

 

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de
firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia
podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a
Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo
haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com
a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que
não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este
compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande
Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou
as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas
convidou a Inglaterra.


Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do
fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio
francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos
porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura,
o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que
destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida
francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à
França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido
o delito da dignidade.


A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem
dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização
ocidental.

Eduardo Galeano é escritor

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