"Não há intenção de regressar ao capitalismo” em Cuba

21/08/2012 16:28

O reverendo Raúl Súarez, 77 anos, é um dos principais personagens ecumênicos da Revolução Cubana. O pastor batista – membro do parlamento cubano desde 1993 – é considerado um dos responsáveis pela flexibilização do Estado cubano em relação à religiosidade.

Por Renato Godoy de Toledo, para o Brasil de Fato

CubaDebate
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Reverendo Raúl Súarez, deputado cubano

Por um longo período, desde 1959, os dirigentes do Partido Comunista não admitiam as práticas religiosas no país, muito menos a presença de religiosos na agremiação. Súarez participou de conversas com Fidel Castro, que foi se convencendo do poder de mobilização da religião, sobretudo após visita a um encontro das Comunidade Eclesiais de Base no Brasil, em 1990. Em entrevista ao Brasil de Fato, Súarez relata como sua trajetória religiosa encontrou-se com os ideais políticos da revolução cubana. O pastor também comenta o momento atual de Cuba, que passa por mudanças para “aperfeiçoar o socialismo”.

Brasil de Fato: Para iniciar, poderia contar um pouco sua trajetória como pastor batista e o seu encontro com os ideais da revolução de 1959?
Raúl Súarez: Vivi 24 anos no sistema capitalista de Cuba. Em 1953, com 18 anos, pela primeira vez ouvi o nome de Fidel Castro, quando do assalto ao Quartel de Moncada. Desde então, minha simpatia por seus ideais se iniciou e permanece até hoje. Quando a revolução triunfa em 1959, iniciei minhas atividades como pastor, em um setor bastante pobre do país, a Península de Zapata. Participei da ajuda aos feridos da invasão mercenária do país, na Baía dos Porcos. Posso dizer que não estava preparado bíblica e politicamente para viver uma revolução comandada por pessoas que não eram da igreja e, em sua maioria, eram marxistas que queriam implementar o socialismo.

No entanto, por minha origem social, em meio aos trabalhadores rurais, algo como os sem-terra do Brasil, um setor muito pobre, meu coração sempre esteve ao lado da revolução, pela obra humanitária de justiça social para todos os cubanos.

Então, havia uma contradição entre um coração que respondia à minha origem social e uma racionalidade que respondia à formação teológica por missionários estadunidenses. Foi um processo agônico, conflituoso, tenso. Mas, em 1971, senti a necessidade de mudar de minha pastoral para iniciar uma nova pastoral com uma base bíblica e teológica mais fortalecida e aberta, contextualizada. Por outra parte, a interpretação que alguns setores da revolução faziam do marxismo-leninismo, criava dificuldades para se tomar uma consciência. Era muito dogmática e sectária, influenciada pelos manuais soviéticos sobre o tema da fé cristã e da revolução.

Como foi a evolução da relação entre a revolução cubana e a religiosidade no país?
Por um longo período, desde 1959, os dirigentes do partido comunista não admitiam as práticas religiosas no país. A partir de 1984, a história me proporcionou um encontro com Fidel Castro. Ali se inicia uma plena consciência de que unidos à revolução, poderíamos superar as contradições entre marxistas e cristãos, tudo pela unidade nacional.

Nesse ano, preparei uma atividade em homenagem a Martin Luther King, como secretário-executivo do Conselho Ecumênico de Cuba, em que defendemos a candidatura do Reverendo Jesse Jackson à presidência dos Estados Unidos. Nesse ato, Fidel compareceu. Participei do jantar que Fidel ofereceu a Jackson e tive uma conversa de três horas com ambos. Fidel nos presenteou com o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto, que ainda não havia sido publicado. Com o propósito de que percebêssemos qual era seu pensamento em relação à religião, que não era um dogmático. Foi um reconhecimento de que não tinha nenhuma restrição com o símbolo, como ele disse, que é Jesus Cristo. Após esse encontro, iniciou-se uma nova etapa entre a revolução e a igreja.

Em 1990, Fidel vem ao Brasil na posse de Fernando Collor e se impressiona com um encontro com cerca de 4 mil delegados de Comunidades Eclesiais de Base. Nessa época, a União Soviética já dava indícios de que desapareceria, e amigos e inimigos da revolução pediam que Fidel fizesse o mesmo movimento que se desenhava no Leste Europeu, ou seja, uma transição ao capitalismo. Nesse encontro, as canções, consignas e as leituras da bíblia eram solidárias com Cuba e pediam a Fidel que se mantivesse firme com a revolução e o socialismo.

Após seu regresso a Cuba, reunimo- nos com muito mais pessoas, por nove horas e, a partir dessa reunião, o Partido Comunista fez uma nova interpretação em relação à política. Em seu 4º Congresso, em relação à igreja, eliminou os impedimentos à religiosidade no país e as barreiras para que os religiosos fossem membros do Partido.

Formulou-se também uma nova lei eleitoral e, em 1993, a Central do Trabalhadores de Cuba me indicou como deputado, pelo papel que o movimento ecumênico estava desempenhando na unidade dos cubanos. Então, desde lá até hoje, sou membro do parlamento cubano e da comissão de relações internacionais.

Não tenho contradição entre ser um pastor ativo, fiel à minha vocação pastoral, e em me posicionar ao lado da revolução e um sentimento de pertencimento ao processo revolucionário.

Como o senhor avalia o processo de mudanças que Cuba vive no momento. Com a renovação dos quadros e a chamada atualização do socialismo?
Eu creio que a situação atual de Cuba e sua definitiva convicção de que se deve reorientar a política e a economia é parte de um processo revolucionário.

A revolução não é um projeto petrificado, congelado no passado, não é um museu, mas um movimento. A situação que vive a humanidade, com crises econômicas, ecológicas, é resultado de um sistema globalizado capitalista, que não é mais sustentável. Por ser globalizado, o capitalismo atinge os países pobres, e Cuba não está imune a isso. Temos poucos recursos. As conquistas sociais de Cuba foram alcançadas em um momento propício.

Fidel, antes da doença, disse: “não há bloqueio estadunidense que possa derrotar a revolução, só nós mesmos podemos o fazer”. Aí ele desenvolve um resumo do que é a revolução, como um decálogo, que reflete a essência do pensamento de Fidel e do pensamento ético revolucionário do povo cubano.

Ele afirma que temos que mudar tudo o que deve ser mudado, sem pular etapas e sem copiar qualquer modelo estrangeiro. Não levamos a cabo o modelo chinês, soviético, vietnamita. Estamos dispostos a aprender com todos, como disse Raúl Castro, mas o nosso projeto deve nascer do contexto cubano, caribenho e latino-americano. Esse processo se leva a cabo com a participação ativa do povo. Iniciou-se um debate em toda a sociedade, incluso as igrejas. Mais de 7 milhões de pessoas participaram, sendo que 1,5 milhão expuseram suas demandas. Disso, criou-se um diagnóstico em que apareceu a angústia, as críticas e as esperanças do povo. As principais críticas eram referentes à burocracia do país, o centralismo do Estado. Não houve críticas ao socialismo e à revolução.

Então surge uma proposta de alinhamento econômico e social. Agora estamos em fase de implementação dessas demandas apontadas no processo de discussão. Por outra parte, se leva a cabo a descentralização do Estado, com menos ministérios, menos burocracia. E a eliminação de algumas decisões verticais e a atribuição de mais poder aos municípios e comunidades, que terão mais autonomia e responsabilidades. É uma reconsideração do projeto socialista e do projeto econômico.

Há uma leitura feita pela imprensa internacional de que essas transformações seriam parte de uma transição ao capitalismo. O que o senhor pensa desta avaliação?
Foi interessante o discurso de Raúl Castro quando tomou posse. “Não fui eleito para destruir o socialismo, mas para aperfeiçoá-lo”. A intenção é essa, colocá- lo em seu tempo e espaço sobre uma base econômica que sustente e que se siga adiante o processo ético de igualdade e justiça.

Não há nenhuma intenção de regressar ao capitalismo. O povo, nos debates, nunca critica o socialismo. Critica os erros que se cometem na construção do socialismo.

Como membro da Comissão de Relações Internacionais do parlamento cubano, como o senhor avalia o atual momento da América Latina? Depois de um período de surgimento de governos mais à esquerda, parece que há uma interrupção dessa tendência, com o golpe de Estado no Paraguai, a eleição de Piñera no Chile e a volta do PRI ao poder no México...
O governo de Bush foi bruto, torpe. Com os problemas internos e as guerras, deu pouca importância para a situação da América Latina. Mas Obama é um presidente astuto e inteligente. É um filho do sistema. Mudou o motorista, mas o carro segue sendo o mesmo. Continua sob o controle da indústria bélica e das grandes transnacionais. Continuam as demandas de construção de bases militares em regiões estratégicas de fonte de água e petróleo.

Iniciaram, em Honduras, uma nova maneira de retomar a América Latina como quintal dos Estados Unidos. Tentaram dar um aspecto legal ao golpe. Agora, no caso do Paraguai, está comprovado que militares dos EUA conversaram com políticos paraguaios sobre a possibilidade de se instalar uma base militar na região do Chaco, uma região miserável, mas estratégica.

Há uma política imperialista que visa impor eleitoralmente, com fraudes ou sem fraudes, governos de direita.

 

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